Analistas ouvidos pela reportagem apontaram que a campanha de Flávio Bolsonaro cometeu erros no segundo turno, vencido por Luiz Inácio Lula da Silva com 51,7% dos votos. Entre os fatores discutidos estão a confiança antecipada na vitória e a dificuldade de atrair eleitores indecisos.
Flávio, do Partido Liberal (PL), havia somado 47,03% dos votos no primeiro turno. A avaliação sobre a campanha também considera a mudança de comportamento dos candidatos entre as duas etapas da eleição.
O relato foi publicado em 29 de outubro de 2026 e reúne opiniões de cientistas políticos, pesquisadores eleitorais e pessoas que tiveram contato com a campanha. A disputa envolveu Flávio e Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), em uma eleição presidencial no Brasil.

Os analistas abordaram a atuação do candidato em eventos e debates, a recepção de suas mensagens por diferentes grupos de eleitores e o impacto de acusações judiciais. Entre os debates considerados na análise estão os exibidos pela TV Band, em 17 de outubro, e pela TV Globo, em 23 de outubro.
Confiança na vitória e montagem antecipada de governo
Depois do primeiro turno, Daniella Marques, coordenadora da campanha de Flávio Bolsonaro, teria comentado com conhecidos da avenida Faria Lima que chefiaria o prometido Ministério da Prosperidade caso o candidato vencesse. Duas fontes que tiveram contato com a informação relataram que ela planejava reunir nessa pasta o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o Ministério das Mulheres, o Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (Memp) e o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS).
A estrutura projetada administraria programas sociais, formularia políticas para pequenos empreendedores e faria a interlocução entre sindicatos e entidades empresariais. Marques também conversou superficialmente com representantes do setor empresarial sobre uma proposta para adiar o fim da escala 6×1, aprovada naquele mês e prevista para entrar em vigor em dezembro.
Ex-presidente da Caixa Econômica Federal por sete meses entre 2022 e 2023, durante o governo de Jair Bolsonaro, Marques tentou marcar conversas com pesquisadores de universidades privadas que estudavam o Bolsa Família. Ela não respondeu aos pedidos de entrevista encaminhados pela reportagem.
A impressão de que o resultado estava definido também apareceu em um encontro empresarial realizado em 13 de outubro, no Clube Monte Líbano, em São Paulo. Organizado pela Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), o evento reuniu, entre outros, o governador Tarcísio de Freitas, o prefeito Ricardo Nunes e Paulo Skaf, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp); no palanque, Flávio falou como se estivesse perto de governar e já contasse com o apoio dos presentes.
Votos pendulares e estratégias no segundo turno
O cientista político Hilton Césario, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP), avaliou que a derrota não decorreu de um único erro, mas da soma de episódios que prejudicaram a imagem do candidato. Entre eles, citou a forma desrespeitosa de se dirigir a Lula, a falta de empatia com a mãe de Ana Clara, declarações arrogantes atribuídas à coordenadora econômica e a reação da campanha a críticas nas redes e nas ruas.
Para Sérgio Abranches, sociólogo e cientista político, a equipe de Flávio manteve o ritmo do primeiro turno e tratou como garantidos votos que ainda precisavam ser conquistados. Ele afirmou que o candidato deveria ter se apresentado como líder e aguardado o resultado, enquanto Lula ampliou sua mobilização presencial sem depender do PT e das centrais sindicais.
O pesquisador Felipe Nunes, fundador da Quaest, apontou que parte do eleitorado de Flávio era pendular, e não necessariamente fiel ao candidato. Entre os turnos, Lula recebeu 10,3 milhões de novos votos, o maior acréscimo desse intervalo desde a redemocratização; Flávio terminou a disputa com cerca de 56,1 milhões, enquanto a abstenção passou de 21% para 19%.
Nos grupos focais do Instituto Ideia realizados durante os debates, o economista Maurício Moura observou avaliações negativas quando Flávio respondia com ironias ou transmitia arrogância. Nunes, por sua vez, considerou que a campanha petista acertou ao fortalecer sua atuação digital e mudar a postura na televisão, mais do que a derrota poder ser explicada apenas pelos erros do adversário.
Dificuldade de diálogo com eleitoras e defesa de programas sociais
A socióloga Christina Vital, da Universidade Federal Fluminense (UFF), avaliou que Flávio não conquistou a confiança de uma parcela expressiva das mulheres. Segundo ela, a campanha de Lula o apresentava como perigoso e pouco confiável, enquanto declarações e posições anteriores do senador davam sustentação a essa mensagem.
Um dos exemplos foi o Bolsa Família: Flávio afirmou que manteria o programa, mas publicações antigas dele o chamavam de “bolsa farelo”. Vital também lembrou que, em 2011, ele foi o único parlamentar a votar contra a criação do Renda Melhor na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, iniciativa que a campanha petista recuperou durante a disputa.
Pesquisas divulgadas na véspera do segundo turno indicaram diferença entre os candidatos. Na Quaest, 53% das mulheres disseram conhecer Flávio, mas jamais votar nele, ante 41% no caso de Lula; no Datafolha, mulheres representavam 44% dos eleitores do senador e 51% dos apoiadores do presidente.
A campanha tentou se aproximar do público feminino com cenas de televisão ao lado de mulheres em supermercados e com a aliança com jovens candidatas da direita, entre elas Eduarda Campopiano, do PL em São Paulo. Vital apontou que a atuação de Flávio, como advogado, na defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado de matar Ana Clara Gomes Machado, de cinco anos, em Niterói, contrariou esse esforço; a mãe da menina, Cristiane Gomes, participou da campanha de Lula e, segundo a socióloga, gerou empatia entre mulheres.
Ironias nos debates e desgaste da linguagem agressiva
Nos grupos focais do Instituto Ideia, Maurício Moura percebeu reações negativas quando Flávio recorria à ironia nos debates. Um episódio destacado ocorreu na TV Globo, quando o senador disse que não adiantava “dar um salário mínimo com uma mão e tirar com os nove dedos”, em referência à amputação do dedo mínimo de Lula, ocorrida em 1964, num acidente de trabalho.
Flávio pediu desculpas após Lula exigir uma retratação. Moura avaliou que a provocação envolvia risco porque, segundo estimou, 7% da população tem alguma deficiência física; para o pesquisador, o comentário podia atingir pessoas com deficiência e suas famílias, num universo de cerca de 60 milhões de eleitores.
A fala circulou nas redes, onde, segundo a análise citada, o trecho que mais se espalhou foi a reação indignada de Lula. A estratégia também provocou críticas dentro da campanha a Pablo Marçal, que aconselhava Flávio antes dos confrontos com o presidente.
O filósofo Renato Lessa, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), descreveu uma mudança na linguagem política associada ao bolsonarismo: de instrumento de comunicação, ela teria assumido um tom acusatório e depreciativo. Hilton Césario também avaliou que esse estilo afastou parte dos indecisos, em vez de ampliar o apoio para além do eleitorado já alinhado.
Acusações envolvendo Daniel Vorcaro e o filme Dark Horse
Questionado sobre sua relação com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, em maio, Flávio negou que os dois tivessem vínculo. Depois que históricos de mensagens trocadas por WhatsApp vieram a público, o senador reconheceu a relação e, segundo a reportagem, admitiu que ela era mais próxima do que havia indicado inicialmente.
Dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e as conversas apontaram repasses de pelo menos US$ 12,3 milhões — equivalentes a R$ 66,2 milhões na cotação de 29 de outubro — à família Bolsonaro entre 2024 e 2025. A justificativa apresentada para o dinheiro era custear Dark Horse, cinebiografia produzida pelo diretor americano Cyrus Nowrasteh.
A Polícia Federal (PF) identificou que os recursos eram recebidos por meio de um fundo offshore no Texas, nos Estados Unidos. O sócio do fundo, Paulo Calixto, havia atuado como advogado de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio e ex-deputado federal que vivia nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025.
O inquérito relacionado a Dark Horse tramitava no gabinete do ministro André Mendonça, no Supremo Tribunal Federal (STF), mas foi suspenso pelo presidente da Corte, Edson Fachin, em setembro, durante uma crise no tribunal. Hilton Césario resumiu a vulnerabilidade política do senador diante dessas acusações como um “teto de vidro”; Abranches também as classificou como danosas por envolverem processos judiciais em andamento.
Inquérito sobre lavagem de dinheiro, passaportes e viagem aos Estados Unidos
Outra acusação contra Flávio veio à tona na reta final do segundo turno: o senador é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro ao lado do advogado Willer Tomaz. Tomaz havia sido alvo de uma operação da PF em agosto, ligada a apurações sobre fraudes no pagamento de benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Flávio e Tomaz negam as acusações. O inquérito está no gabinete do ministro Alexandre de Moraes, que, no dia seguinte à eleição, determinou a apreensão dos passaportes do senador; segundo a reportagem, Flávio não os entregou dentro do prazo solicitado.
Após a derrota, Flávio afirmou inicialmente que pediria a anulação do processo eleitoral; depois, disse que lideraria a oposição e pediria a cassação da chapa vencedora. Em 28 de outubro, viajou aos Estados Unidos e publicou uma carta na qual se declarou “verdadeiro presidente eleito do Brasil”; 23 minutos depois, republicou o texto editado para se apresentar como “líder do Brasil”.
Christina Vital avaliou que a viagem poderia ser relacionada às acusações feitas durante a campanha, segundo as quais Flávio tentaria evitar a Justiça por meio do cargo. A socióloga ponderou, porém, que a ida aos Estados Unidos não seria necessariamente interpretada pelo eleitorado como fuga dos processos: a leitura dependeria da justificativa divulgada pela família Bolsonaro, que poderia apresentar a viagem como exílio.


