Expectativas da Faria Lima para o novo governo Lula

As expectativas da Faria Lima para o novo governo Lula se dividem entre dois cenários, ambos considerados difíceis por executivos do mercado financeiro. As avaliações envolvem as escolhas econômicas do quarto mandato do presidente.

Em artigo publicado em 29 de outubro de 2026, Fabrizio Gueratto relata ter conversado com mais de 20 CEOs e executivos do setor financeiro. Segundo o colunista, os entrevistados divergiram sobre a possibilidade de o governo evitar o pior, mas nenhum demonstrou otimismo.

A discussão envolve Lula e o mercado financeiro, mas também trabalhadores e empresas no Brasil. Gueratto relata que um CEO lhe disse que a companhia havia demitido 25% dos colaboradores, decisão que atribuiu à preparação para um ambiente econômico mais difícil.

expectativas da Faria Lima

As perspectivas apresentadas abordam o desequilíbrio fiscal, a escolha do ministro da Fazenda e possíveis efeitos sobre dólar, inflação, juros, investimentos e emprego. O artigo também trata de segurança jurídica e da distribuição dos impactos econômicos entre investidores e trabalhadores.



Expectativas do mercado e limites das contas públicas

Segundo Fabrizio Gueratto, a dívida bruta brasileira chegou a 82,5% do PIB em julho de 2026. Para 2027, o orçamento prevê R$ 2,83 trilhões em despesas primárias, e cerca de 90% desse montante é composto por gastos obrigatórios.

O espaço para cortes sem mudanças estruturais é limitado: aproximadamente R$ 143 bilhões, ou 5% das despesas previstas, poderiam ser reduzidos. A vinculação do salário mínimo a aposentadorias e benefícios também pressiona o orçamento; cada R$ 1 de aumento acrescentaria cerca de R$ 413 milhões às contas públicas.

O histórico fiscal citado por Gueratto mostra que, desde 2014, o governo central registrou superávit primário em apenas um ano. Em 1999, o resultado primário melhorou cerca de 3,2 pontos porcentuais do PIB, durante uma crise cambial e com apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Na avaliação do colunista, a necessidade atual de ajuste se aproxima de dois a três pontos do PIB, mas o país não conta com as mesmas condições excepcionais de 1999. Com a carga tributária próxima de 34% do PIB, aumentar impostos também encontra limites, enquanto novas despesas permanentes exigiriam indicar de onde virão os recursos.

Expansão de gastos pode pressionar câmbio, inflação e juros

Um dos caminhos descritos por Gueratto é o governo ampliar despesas sem enfrentar o desequilíbrio fiscal. Nessa hipótese, a piora das expectativas poderia pressionar o dólar, a inflação e os juros, encarecendo o crédito e dificultando investimentos.

O artigo também pondera que uma eventual subida do Brasil no ranking das maiores economias não significaria, por si só, aumento da renda ou da produtividade. Como a comparação é feita em dólares, o câmbio e o desempenho de outros países influenciam a posição brasileira.



Entre os exemplos citados estão Itália e Rússia: a primeira enfrenta baixo crescimento e dívida pública elevada; a segunda, efeitos econômicos da guerra e das sanções internacionais. Avançar no ranking porque outros países perderam posições, argumenta Gueratto, não equivale a crescer com competitividade e expansão sustentada da renda.

O PIB brasileiro poderia crescer entre 2% e 3% em 2026, segundo o texto, mas o resultado isolado não garante continuidade. Se uma parcela relevante do crescimento depender do impulso fiscal, sem avanço correspondente do investimento privado e da produtividade, será mais difícil manter esse ritmo.

Pragmatismo fiscal depende de medidas e previsibilidade institucional

Um cenário menos pessimista dependeria, segundo Gueratto, da escolha de um ministro da Fazenda com perfil pragmático, disposto a dialogar com investidores, sinalizar controle de despesas e rever promessas que não cabem no orçamento. O artigo não associa essa postura a uma orientação partidária específica, mas à sustentabilidade das contas públicas.

O colunista ressalva que mudanças em benefícios sociais e despesas obrigatórias enfrentariam resistências políticas e poderiam afetar a popularidade presidencial. Por isso, medidas graduais poderiam reduzir parte da desconfiança, embora não representassem necessariamente uma política de austeridade profunda.

Estimativas da Kinea citadas no artigo indicam que um ajuste de dois pontos porcentuais no resultado primário, combinado com a redução de aproximadamente três pontos no custo da dívida, poderia estabilizar o endividamento perto de 90% do PIB. Sem a queda dos juros, o mesmo esforço fiscal seria insuficiente para alcançar esse resultado.

Gueratto também aponta a judicialização de temas econômicos, tributários e regulatórios como fator de atenção para empresas. Para investimentos de cinco ou dez anos, afirma o texto, segurança jurídica e previsibilidade são relevantes porque mudanças nas regras podem pesar nas decisões de longo prazo.

Perda de confiança pode afetar investimentos e emprego

Na análise de Gueratto, grandes investidores dispõem de patrimônio, diversificação internacional e alternativas de renda fixa que podem oferecer retornos elevados quando os juros estão altos. Essa proteção não está igualmente disponível para trabalhadores de menor renda, que dependem mais diretamente do salário.

O artigo relaciona a confiança empresarial às decisões de investir: empresas precisam acreditar que haverá demanda, retorno e condições para crescer. Quando essas perspectivas se deterioram, podem recuar investimentos e contratações, afetando a atividade econômica e a renda das famílias.

Por isso, as expectativas da Faria Lima não dizem respeito apenas aos participantes do mercado financeiro, segundo o argumento de Gueratto. As decisões fiscais e institucionais do governo podem influenciar as condições de investimento e trabalho, enquanto os impactos de uma economia mais fraca tendem a pesar mais sobre quem tem menor margem financeira.





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