Mercado financeiro vê dois cenários difíceis para Lula

O mercado financeiro enxerga dois caminhos difíceis para o quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo análise de Fabrizio Gueratto publicada em 29 de outubro de 2026. Após ouvir mais de 20 executivos, o colunista relata que as avaliações variam entre um cenário muito ruim e outro considerado menos pessimista.

As perspectivas têm como pano de fundo as contas públicas e o orçamento federal de 2027, além das escolhas da equipe econômica. Para os executivos ouvidos, as decisões do governo podem influenciar a confiança de investidores e empresas.

O debate envolve o governo, o setor financeiro e empresas, mas também pode alcançar trabalhadores e famílias. Gueratto relata ter ouvido de um CEO que uma companhia demitiu parte de seus colaboradores diante da expectativa de um ambiente econômico mais difícil.

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A análise aborda os riscos associados à expansão de despesas, os sinais de responsabilidade fiscal e a relação entre confiança, juros e investimento. Também considera a segurança jurídica e os possíveis efeitos da perda de confiança sobre emprego e renda.



Endividamento e limites do orçamento público

Em julho de 2026, a dívida bruta brasileira correspondia a 82,5% do PIB, segundo os dados citados por Fabrizio Gueratto. Para 2027, o orçamento prevê R$ 2,83 trilhões em despesas primárias, e cerca de 90% desse total está comprometido com gastos obrigatórios.

Do orçamento previsto, aproximadamente R$ 143 bilhões — cerca de 5% das despesas — poderiam ser cortados sem mudanças estruturais. A margem limitada para reduções torna mais difícil acomodar novas despesas permanentes sem indicar como serão financiadas.

O cálculo apresentado na análise também relaciona o salário mínimo às contas públicas: cada aumento de R$ 1 acrescentaria cerca de R$ 413 milhões às despesas, por causa da vinculação com aposentadorias e benefícios. Assim, propostas de ampliar gastos sociais ou elevar benefícios têm efeitos que ultrapassam o valor inicial anunciado.

A carga tributária brasileira, próxima de 34% do PIB, também limita a possibilidade de cobrir o desequilíbrio apenas com mais impostos. Gueratto observa que, desde 2014, o governo central registrou superávit primário em somente um ano.

Dois cenários fiscais e seus efeitos sobre a economia

No caminho considerado mais preocupante pelos executivos ouvidos por Gueratto, o governo ampliaria despesas sem enfrentar o desequilíbrio fiscal. A escolha de um ministro da Fazenda visto como mais comprometido com convicções ideológicas do que com a sustentabilidade das contas poderia reforçar essa avaliação.

A análise compara o desafio atual ao ajuste de 1999, quando o resultado primário melhorou cerca de 3,2 pontos porcentuais do PIB. Naquele período, a mudança ocorreu em meio a uma crise cambial e ao apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI); para os próximos anos, a necessidade de ajuste é estimada em dois a três pontos do PIB, sem as mesmas condições excepcionais.



Se as despesas crescerem sem uma resposta fiscal, a deterioração das expectativas pode pressionar o dólar e tornar a inflação mais persistente, mantendo os juros elevados por mais tempo. O custo maior do crédito pode dificultar investimentos e reduzir a capacidade de crescimento da economia.

O cenário menos pessimista dependeria de um ministro da Fazenda pragmático, de sinais de contenção de despesas e da revisão de promessas de campanha incompatíveis com o orçamento. Gueratto ressalva que mudanças em benefícios sociais e gastos obrigatórios enfrentariam resistências políticas e poderiam afetar a popularidade presidencial.

Juros, custo da dívida e previsibilidade institucional

Estimativas da Kinea citadas por Gueratto indicam que um ajuste de dois pontos porcentuais no resultado primário, acompanhado de uma redução de aproximadamente três pontos no custo da dívida, poderia estabilizar o endividamento perto de 90% do PIB. Sem a queda dos juros, o mesmo esforço fiscal não seria suficiente, de acordo com essas estimativas.

A análise sustenta que anúncios de responsabilidade fiscal precisariam ser acompanhados por sinais de cumprimento para convencer investidores, empresários e consumidores. A relação entre o resultado primário e o custo da dívida aparece, portanto, como parte do desafio de estabilizar o endividamento.

Gueratto também aponta a judicialização de questões econômicas, tributárias e regulatórias como um fator a acompanhar. Para decisões de investimento de longo prazo, o texto associa segurança jurídica e previsibilidade institucional à confiança nas regras e nos contratos.

O artigo cita ainda a possibilidade de o Brasil subir no ranking das maiores economias, mas observa que uma comparação em dólares depende também do câmbio e do desempenho de outros países. A projeção de crescimento do PIB brasileiro entre 2% e 3% em 2026, por si só, não indicaria avanço sustentado se a expansão não viesse acompanhada de investimento privado e ganhos de produtividade.

Como a perda de confiança pode afetar emprego e renda

Gueratto relata ter visitado uma empresa cujo CEO informou que a companhia havia demitido 25% dos colaboradores. Segundo o executivo, a decisão buscava preparar a operação para um ambiente econômico que ele considerava mais difícil nos quatro anos seguintes.

O texto ressalva que a demissão em uma empresa não comprova, isoladamente, o comportamento de toda a economia. Ainda assim, o caso é apresentado como exemplo de como expectativas mais negativas podem aparecer em decisões sobre contratações, projetos e equipes antes de serem refletidas em indicadores econômicos.

Na análise, a perda de confiança pode levar empresários a reduzir investimentos quando deixam de acreditar na demanda, no retorno e nas condições para crescer. Com menos investimento, emprego e renda ficam expostos, sobretudo para trabalhadores de menor renda.

Gueratto observa que grandes investidores contam com patrimônio, diversificação internacional e alternativas de renda fixa em períodos de juros altos, enquanto trabalhadores dependem mais diretamente do salário. Por isso, a conta de uma economia enfraquecida pode atingir famílias que têm menos recursos para absorver a perda de emprego ou de renda.





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