A pressão da Faria Lima sobre o governo Lula é o tema de um artigo de Ricardo Lodi Ribeiro, publicado em 2 de novembro de 2026. O professor defende que as decisões sobre as contas públicas não devem se sobrepor aos compromissos sociais do mandato.
Na análise, Ribeiro relaciona o resultado da eleição de 25 de outubro à disputa entre projetos econômicos. Ele contrapõe a defesa da inclusão social à proposta de redução das despesas primárias apresentada pela equipe de Flávio Bolsonaro durante a campanha.
Entre os grupos citados estão idosos que votaram para proteger direitos e estudantes que participaram de mobilizações em outubro pela educação pública e pela democracia. O texto aborda como escolhas orçamentárias podem afetar aposentadorias, serviços de saúde, bolsas e a permanência na universidade.

Com dados atribuídos ao Banco Central sobre as contas públicas de 2025, Ribeiro questiona a prioridade dada aos cortes sociais no debate fiscal. O artigo também trata de alternativas de arrecadação, dos juros da dívida e dos efeitos políticos de uma eventual mudança de rumo do governo.
A eleição de 2026 e a disputa sobre o programa econômico
Ricardo Lodi Ribeiro registra que mais de 64 milhões de eleitores escolheram Lula. Para o autor, o resultado conferiu ao presidente uma responsabilidade política que inclui preservar direitos sociais, além de administrar as contas públicas.
Na campanha, a equipe de Flávio Bolsonaro apresentou uma proposta de redução das despesas primárias em cerca de R$ 200 bilhões. Ribeiro sustenta que esse programa foi derrotado nas urnas e não deve voltar como uma exigência técnica imposta ao governo eleito.
O artigo descreve a disputa como um confronto entre projetos: de um lado, inclusão social e atuação estatal para atender quem precisa; de outro, a redução de gastos primários defendida pela equipe adversária. Na avaliação do professor, a pressão da Faria Lima não deve transformar as preferências de setores financeiros em limites superiores à decisão expressa pelo voto.
Déficit primário, juros e prioridades do orçamento público
Segundo dados do Banco Central citados por Ribeiro, o setor público consolidado registrou, em 2025, déficit primário de R$ 55 bilhões. Esse resultado considera receitas e despesas, mas não inclui os juros da dívida.
Quando os juros são incorporados, o déficit nominal alcança R$ 1,0626 trilhão. A diferença entre os dois resultados corresponde a R$ 1,0076 trilhão em juros nominais, no mesmo período e para o mesmo conjunto de entes públicos.
Ribeiro observa que o déficit nominal foi cerca de 19 vezes o primário, enquanto este representou aproximadamente 5% do resultado negativo total. Ele ressalva que essa proporção não significa que os gastos sociais somaram R$ 55 bilhões, mas questiona um debate fiscal que prioriza cortes sociais sem dar o mesmo escrutínio ao custo dos juros.
Direitos sociais e alternativas aos cortes de despesas
Na interpretação de Ribeiro, saúde, educação, previdência e assistência social são direitos fundamentais previstos na Constituição, não benefícios condicionados à satisfação dos investidores. O autor critica regras fiscais que, segundo ele, podem colocar a contenção dessas políticas acima das finalidades sociais do poder público.
O artigo também argumenta que a despesa social sustenta serviços, trabalho, acesso à educação e cuidados de saúde. Ribeiro defende que resultados e desperdícios sejam avaliados, mas rejeita tratar a atuação do Estado apenas como custo, sem considerar os serviços oferecidos a quem não pode comprá-los no mercado.
Entre as alternativas que o autor propõe discutir estão a revisão de benefícios fiscais sem justificativa social e o enfrentamento de privilégios tributários. Ele também menciona cobrar uma contribuição compatível com a capacidade econômica dos mais ricos e avaliar os efeitos dos juros sobre as contas públicas.
Em Orçamento para os Ricos, Ribeiro aborda a necessidade de identificar quem se beneficia das escolhas orçamentárias. O texto não apresenta essas alternativas como medidas prontas: afirma que cada uma exige desenho e debate, em vez de concentrar os sacrifícios na população mais vulnerável.
Austeridade, base social e riscos para a democracia
Ribeiro aponta a experiência de Dilma como advertência política. Depois de vencer Aécio Neves em 2014 com um discurso de fortalecimento dos direitos sociais, ela iniciou o segundo mandato com Joaquim Levy na Fazenda e adotou medidas de austeridade, incluindo restrições a benefícios trabalhistas e previdenciários.
Segundo o autor, essa mudança contribuiu para afastar o governo de sua base social, sem assegurar a lealdade dos setores que buscava tranquilizar. Dilma foi deposta em 2016; Ribeiro ressalva que a austeridade não foi a única causa da ruptura, mas afirma que ceder à agenda dos adversários pode enfraquecer os vínculos com quem sustenta um mandato popular.
O professor defende que Lula negocie com o Congresso e considere as restrições econômicas, sem conceder ao setor financeiro poder de veto sobre o programa escolhido pelos eleitores. Para ele, a confiança no mandato depende de que as decisões do governo mantenham relação com os compromissos que levaram a população a votar.
Ribeiro também propõe levar a discussão orçamentária à sociedade, com participação de movimentos sociais, universidades, trabalhadores e usuários de serviços públicos. Em sua análise, quando eleitores que escolheram a inclusão recebem um programa de austeridade semelhante ao defendido pelos adversários, pode diminuir a confiança na capacidade da democracia de produzir mudanças.


