Um site chamado Meu Dinheiro Não reúne empresas em listas de boicote por manifestações de apoio ao presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo reportagem assinada por Guilherme Pavarin, a plataforma orienta consumidores a evitar alguns estabelecimentos e recomenda outros.
Perfis bolsonaristas divulgaram a iniciativa na rede X em 27 de outubro de 2026, dois dias após a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial. O site permite que usuários indiquem empresas e sugiram classificações.
Os registros incluem estabelecimentos em Manaus (AM), Castanhal (PA) e São Paulo (SP), além de uma empresa de entretenimento de Maringá (PR). As justificativas mencionam manifestações de funcionários e opiniões políticas de proprietários.

A divulgação de listas ocorre em meio a denúncias de retaliação política no trabalho: o Ministério Público do Trabalho (MPT) informou ter recebido 530 novas queixas entre 25 e 27 de outubro de 2026. A discussão envolve a atuação da plataforma, possíveis consequências legais e medidas anunciadas por órgãos públicos.
Como o site classifica empresas e quais justificativas apresenta
A plataforma separa os estabelecimentos entre “Em alerta” e “Recomendadas”. A primeira categoria reúne negócios associados a pessoas favoráveis a Lula, enquanto a segunda indica empresas que, segundo o site, apoiam a extrema direita.
Os critérios declarados incluem opiniões políticas, doações e patrocínios. A moderação exige pelo menos uma fonte pública para aprovar uma inclusão, e a reportagem informa que a maioria das referências apresentadas leva a perfis pessoais em redes sociais.
Uma das justificativas para incluir a Adidas Manauara Shopping, em Manaus, foi a comemoração de funcionários após a vitória de Lula. O registro não aponta uma declaração de apoio feita pela própria empresa; situação semelhante foi atribuída a funcionários de uma sorveteria em Castanhal, que gravaram vídeos celebrando o resultado.
Também aparecem casos baseados em manifestações individuais ou descrições genéricas. A Bruna Tavares House foi listada após sua proprietária publicar, em perfil pessoal, uma foto usando vermelho e um adesivo de apoio a Lula; já a likemove360, de Maringá, foi descrita como pertencente a “petistas roxos”, com indicação de um perfil no Instagram, mas sem referência específica a algum proprietário.
Anonimato dos responsáveis e mecanismos de pressão pública
Os responsáveis pelo projeto não se identificam, e a plataforma não apresenta informações públicas sobre financiamento ou eventuais vínculos partidários. Em seu manifesto, eles negam promover perseguições e afirmam que os consumidores devem decidir onde gastar o próprio dinheiro.
Além da lista, o site oferece um mecanismo para que usuários publiquem no X questionamentos dirigidos às empresas. Um contador registra quanto tempo cada estabelecimento permanece sem responder, conforme a descrição da plataforma.
Há ainda uma área que preserva registros de manifestações feitas nas redes sociais, mesmo quando as publicações originais são apagadas. A ferramenta integra a estratégia de exposição pública associada ao boicote a empresas por apoio político.
Na manhã de 29 de outubro de 2026, a lista tinha 71 empresas em “Em alerta” e duas em “Recomendadas”. Um comunicado publicado pelos administradores no X em 28 de outubro informou que o projeto havia recebido mais de 200 indicações.
Questionamentos legais e medidas contra retaliação política no trabalho
Campanhas de boicote podem estar protegidas pela liberdade de expressão, mas a divulgação de informações falsas ou obtidas sem o devido cuidado pode levar a responsabilização civil. Em Cafelândia, no interior de São Paulo, o Tribunal de Justiça de São Paulo condenou dois bolsonaristas por perseguição após a divulgação de uma lista de boicote contra comerciantes e profissionais nas eleições de 2022.
As penas foram de um ano e quatro meses e um ano e cinco meses de prisão. A Justiça permitiu que os condenados permanecessem em liberdade sob condições especiais, sem anular as condenações.
O Ministério Público do Trabalho (MPT) contabilizou 2.467 denúncias ao longo do ano até o período informado: 991 até o fim do primeiro turno e outras 946 durante o segundo. As queixas citavam ameaças de demissão, dispensas e outras retaliações a trabalhadores por suas preferências políticas; no conjunto, as 530 novas reclamações registradas entre 25 e 27 de outubro correspondiam a 21,4% do total.
Em 27 de outubro, cinco deputados federais do PT, liderados por Paulo Pimenta, solicitaram à Procuradoria-Geral da República (PGR), à Polícia Federal (PF) e ao MPT uma investigação nacional sobre as listas, incluindo a identificação de responsáveis, financiadores e possíveis conexões entre iniciativas. No dia seguinte, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o MPT, a Advocacia-Geral da União (AGU) e outros órgãos anunciaram medidas contra discriminação política no trabalho, entre elas notificações a plataformas digitais para retirar conteúdos que promovam perseguição ou discriminação.
O procurador do trabalho Igor Sousa Gonçalves afirmou que, em princípio, divulgar listas de empresas e incentivar boicotes políticos não está entre as atribuições do MPT. Segundo ele, uma atuação dependeria de elementos concretos de repercussão nas relações de trabalho, como discriminação, ameaças, perseguições ou incentivo à demissão por convicções políticas; a PF declarou que não confirma nem comenta eventuais investigações em andamento.


