Uma lista de boicote a empresas foi publicada pela plataforma Meu Dinheiro Não, que classifica estabelecimentos conforme supostas manifestações políticas de donos ou funcionários. A reportagem de 31 de outubro de 2026 informa que o site orienta consumidores a evitar empresas associadas a apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Perfis bolsonaristas divulgaram a plataforma na rede X a partir de 27 de outubro, dois dias após a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial. O site também classifica como recomendados estabelecimentos associados à extrema direita.
Entre os casos citados estão uma loja da Adidas no Manauara Shopping, em Manaus, e uma sorveteria de Castanhal, no Pará. A lista também inclui a marca de cosméticos Bruna Tavares House, em São Paulo, após uma publicação de sua proprietária em perfil pessoal.
A iniciativa ocorre em meio a denúncias de retaliação política no trabalho e a medidas anunciadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). O caso envolve ainda questionamentos legais e um precedente de condenação no Tribunal de Justiça de São Paulo.
Como a plataforma classifica e expõe empresas
O site organiza os estabelecimentos em duas categorias: “Em alerta”, para comércios associados a opiniões favoráveis a Lula, e “Recomendadas”, para os relacionados a apoiadores da extrema direita. A classificação também pode considerar opiniões políticas, doações e patrocínios.
Qualquer usuário pode indicar uma empresa e sugerir em qual categoria ela deveria entrar. Para aprovar uma inclusão, a moderação exige ao menos uma fonte pública, embora a maioria das referências apresentadas leve a perfis pessoais em redes sociais.
Os critérios não diferenciam manifestações individuais de proprietários, funcionários ou equipes terceirizadas de posicionamentos institucionais das empresas. Assim, registros podem se basear em declarações pessoais, sem indicação de que o estabelecimento tenha assumido aquela posição.
Os responsáveis pelo projeto não se identificam, e a plataforma não apresenta informações públicas sobre financiamento ou vínculos partidários. No manifesto, os administradores negam incentivar perseguições e afirmam que cabe aos consumidores decidir onde gastar; até a manhã de 29 de outubro, havia 71 empresas em “Em alerta” e duas em “Recomendadas”, enquanto o perfil oficial informou ter recebido mais de 200 indicações em 28 de outubro.
Questionamentos legais e precedente de condenação em São Paulo
Campanhas de boicote podem estar protegidas pela liberdade de expressão, mas a divulgação de informações falsas ou obtidas sem o devido cuidado pode levar à responsabilização civil. A avaliação depende, portanto, do conteúdo divulgado e das circunstâncias em que as informações foram levantadas.
Há também um precedente criminal envolvendo uma lista contra comerciantes e profissionais em Cafelândia (SP), durante as eleições de 2022. Dois apoiadores de Bolsonaro foram condenados pelo Tribunal de Justiça de São Paulo pelo crime de perseguição.
As penas foram de um ano e quatro meses para um dos condenados e de um ano e cinco meses para o outro. A Justiça permitiu que ambos permanecessem em liberdade, desde que cumprissem condições especiais, mas manteve as condenações.
Denúncias trabalhistas e medidas de órgãos públicos
O Ministério Público do Trabalho (MPT) informou que recebeu 530 novas queixas entre a noite de 25 de outubro e a tarde de 27 de outubro. O volume correspondeu a 21,4% das 2.467 denúncias registradas no ano até então; antes desse intervalo, o órgão contabilizava 991 relatos até o fim do primeiro turno e outros 946 durante o segundo.
As queixas mencionavam ameaças de demissão, dispensas e outras retaliações contra trabalhadores por suas preferências políticas. Em 27 de outubro, cinco deputados federais do PT, liderados por Paulo Pimenta, pediram à Procuradoria-Geral da República (PGR), à Polícia Federal (PF) e ao MPT uma investigação nacional sobre as listas, incluindo a identificação de responsáveis, financiadores e possíveis conexões entre as iniciativas.
Em 28 de outubro, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o MPT, a Advocacia-Geral da União (AGU) e outros órgãos anunciaram medidas contra a discriminação política no trabalho. Entre elas, estão notificações a plataformas digitais para retirar conteúdos que promovam perseguição ou discriminação.
O procurador do trabalho Igor Sousa Gonçalves avaliou que, em princípio, divulgar listas de empresas e incentivar boicotes políticos não está entre as atribuições do MPT, voltadas aos direitos fundamentais nas relações de trabalho. Segundo ele, uma atuação dependeria de elementos concretos de repercussão laboral, como discriminação, ameaças, perseguição ou incentivo à dispensa por convicções políticas; a PF afirmou que não confirma nem comenta eventuais investigações em andamento.


